quinta-feira, 20 de junho de 2019

O BAHIR,O LIVRO DA ILUMINAÇÃO

   Olá pessoal! Nesse post vou fazer uma resenha sobre o Bahir, texto muito importante da cabala.
   Dentre as várias edições disponíveis a que eu mais indico é da editora Polar lançado em 2018, está muito bem feita: capa, papel, diagramação, tudo. Além disso foi traduzida a partir da versão em inglês com comentários de Aryeh Kaplan (1934-1983) e versão escrita em hebraico inclusa. Foi graças a esse grande erudito que vários textos importantíssimos da tradição cabalística que apenas circulavam de maneira restrita em hebraico entre adeptos se tornaram disponíveis ao grande público e com comentários de quem possui embasamento e domínio sobre o tema. Aryeh Kaplan foi certamente um dos maiores cabalistas da era moderna e sua vida e realizações merecem um resumo por aqui, quando puder tentarei prestar essa modesta homenagem a ele. 
   O "Bahir" (sefer ha bahir-significa "livro brilhante", ás vezes chamado também de "livro da iluminação" ou "Midrash do Rabi Nehunia") se não é um dos textos base da cabala menos conhecidos, possivelmente é dos menos divulgados se comparado ao Sefer Yetsirá e ao Zohar. Sua autoria costuma ser atribuída ao sábio e místico judeu do séc. I Nehunya ben Hakanah. ben Hakanah nasceu em Emaús, tinha vários servos embora parecesse ter uma atitude desleixada em relação ao dinheiro e viveu até uma idade muito avançada. Existem citações a respeito de halachá (interpretação da lei judaica) atribuídas a ben Kakanah no Talmud. Também no Hechalot (texto principal relativo a "merkabah" técnica de ascensão espiritual) se menciona ben Hakanah como ensinando essas técnicas e também ascendendo aos planos superiores para averiguar a razão de ter surgido uma lei que mandava matar todos os sábios. A ele é atribuída a criação da oração "Ana Beoach" cujas letras iniciais formam o "nome de 42 letras". Ele foi certamente um mestre em misticismo de sua geração e é mencionado logo no início do Bahir. Também se menciona no texto vários outros sábios que fazem dissertações sobre vários temas. Durante muito tempo o Bahir permaneceu apenas nas mãos de um grupo restrito de adeptos judeus, e, outros sábios mesmo sendo estudantes de cabala sequer conheceram-no. Quando uma importante escola cabalística se mudou para Provença na França, eles tomaram a decisão de divulgar o Bahir por volta do ano 1100, foi primeiramente publicado em 1176. Edição da editora Polar:

   Quanto á estrutura, trata-se de um texto pequeno composto de 200 versículos, foi escrito na forma de uma discussão entre sábios onde cada um fala sobre um assunto ou comenta um trecho da Torá. A uma primeira olhada o texto pode parecer confuso, sem uma estrutura consistente e evasivo. Mas, uma leitura mais meticulosa revela que certos tópicos são tratados de forma consistente, começando por comentários sobre a criação e outros trechos da Torá, depois sobre as primeiras letras do alfabeto hebraico, explicação de conceitos relacionados ás séfiras da árvore da vida e termina abordando sobre mistérios relacionados á alma e até menções á reencarnação, tudo isso entrecortado com citações esporádicas á personagens bíblicos e interpretações de fora da Torá sobre passagens narrado sobre eles. O estilo do texto lembra e muito o Zohar e não por acaso: Aryeh Kaplan comenta que Shimon bar Yochai teve contato com a escola de ben Hakanah. Mas, diferente do Zohar que realmente parece evasivo e disperso, no Bahir os ensinamentos estão mais compactados. Raba e Rav Zeira que também são mencionados no Talmud como tendo realmente criado um golem são mencionados no Bahir, por isso se especula que a redação final do texto pode ter sido feita pelos Amorains, os últimos sábios a comporem o Talmud no séc. IV. 
   O Bahir não é, certamente, um texto para ser lido de forma leviana ou por lazer para "matar o tempo", sugere-se que o estudante realmente comprometido leia de forma reflexiva, só nesse estado se consegue alcançar o real significado do que é tratado ali. Apesar dessa edição contar na segunda parte com comentários de Aryeh Kaplan, o mais recomendado é o estudante ler e escrever sua própria interpretação. O conteúdo cabalístico do Bahir torna ele um livro muito importante dentro desse corpo de conhecimentos e os cabalistas sérios considerarão esse um trabalho de referência.    

domingo, 19 de maio de 2019

CABALA  COMO UMA  BASE

   Olá pessoal! Nesse post vou fazer um comentário em cima de um trecho de uma palestra do conspirólogo Bill Cooper.
   Já a um bom tempo venho usando esse espaço para compartilhar alguns fundamentos da cabala e sobre o esoterismo judaico em geral, então, o pessoal que acompanha sabe o que tem ou não fundamento em relação a esses tópicos, pois, existem muitas informações desprovidas de fundamento espalhadas pela internet afora. Eu escolhi fazer um comentário em cima desse trecho pois ele explica bem alguns fundamentos da cabala explicados por alguém que pesquisou por conta própria o assunto de perto. Convém antes dar uma breve explicação sobre quem foi Bill Cooper. Milton William Cooper nascido em 1943 e falecido em 2001 foi um conhecido conspirólogo (na verdade foi um dos percussores do que viria muito mais tarde com o advento da era da internet). Ele serviu na marinha e força aérea dos EUA até se aposentar em 1975, depois se formou na faculdade, passou a trabalhar como radialista e dedicou seu tempo a pesquisar e publicar sobre "teorias da conspiração" muitas expostas em seu livro "Behold a Pale Horse" de 1991. Em seu tempo como militar ele notou que muitos militares de alta patente estavam vinculados a "sociedades secretas" grupos onde o ocultismo tem grande importância. Ele morreu em circunstancias obscuras em sua própria casa durante uma troca de tiros com um policial (logicamente mexeu com "peixes" muito grandes das altas esferas). Esse video é facilmente encontrado pelo youtube e vale o comentário, vou primeiro apresentar o que ele disse:
   "-Vocês tem que ser muito cuidadosos com o que vocês interpretam quando leem, especialmente a Bíblia e eu vou lhes dizer porque. Quando eu pesquisei essas sociedades secretas e a Bíblia, e eu sou um cristão por isso não pensem que eu estou indo contra sua religião pois eu não estou, só estou dizendo o que eu achei. Eu descobri que bem no núcleo mais profundo dessas sociedades secretas se estuda cabala. Cabala é o antigo misticismo judaico e um método de codificação de informações através de um sistema de matemática e números, é um dos mais antigos conhecimentos que o homem já possuiu e tem sido mantido em segredo e dado apenas àqueles que provaram-se dignos através do processo de iniciação. Ninguém sabe de onde isso veio mas eu posso te dizer isso: já estava lá muito antes dos judeus virem, os judeus apenas tomaram para si e preservaram pois está no núcleo do conhecimento metafísico real, ciência real. Essas pessoas que pertencem a essas sociedades secretas nunca se atreveram a anotar em qualquer idioma o que eles sabem porque senão alguém poderia roubá-lo e o segredo estaria exposto, então eles inventaram sistemas secretos de codificações de conhecimento através das eras, o "oculto". Agora, "oculto" não significa "mal", não significa "o diabo", "oculto" significa aquilo que está escondido, uma das maneiras de codificar isso é através de matemática e números, o outro é arquitetura(...)."

   Muito relevante tudo que Bill Cooper disse nesse trecho de sua palestra. Ele começa advertindo sobre o cuidado ao interpretar certos textos, como a Bíblia. Os que acompanham as informações aqui do blog ou mesmo de outras fontes já sabem que muito da cabala vem da Bíblia, e muito do que religiosos fanáticos ou simplesmente ingênuos leem como sendo "fatos" do passado registrados nesse texto na verdade são apenas alegorias, falta ao leitor comum o entendimento e preparo para saber interpretar corretamente. Tanto no "Zohar" quanto no "Bahir" trechos bíblicos são citados centenas de vezes e explicados de acordo com a interpretação rabínica que passa despercebido do leitor comum. Depois ele diz que no núcleo dessas "sociedades secretas" (nem tão secretas, são grupos iniciáticos dedicados ao oculto) se estuda a cabala. A cabala se diferencia de muitos outros sistemas pois longe de ter como propósito "mistificar", prejudicar os outros ou algo assim, na cabala só se mantém o que tem fundamento e em grande parte métodos de codificações e decodificações, ele mencionou números, mas vale citar as "letras" que na cabala possuem valor numérico e grande importância. Diferente de tradições "familiares" como a bruxaria tradicional chamada de "shtriga" em partes da Itália e Europa Central, (não confundir com "wicca" que é recente e foi forjada vagamente baseada na shtriga por Gardner e Crowley, na verdade tem cara de um neo-paganismo mal disfarçado) a cabala se mantém como um sistema de posse de indivíduos com perfil erudito, bem formados é um sistema majoritariamente patriarcal. Em seguida fala que tal conhecimento só é transmitido através do processo de iniciação. Em outro post futuro do outro blog ricardodias7.blogspot.com eu pretendo comentar sobre iniciação real. Ele fala que a origem da cabala é desconhecida porém é antiga e já estava lá antes dos judeus. Muitos pesquisadores tem se debruçado sobre quais são as origens da cabala e muito se especula sobre isso, sabe-se que muitos povos do passado fizeram uso dela ou de partes dela como os caldeus, antigos egípcios e os seguidores de Pitágoras. As gerações atuais passaram a conhecê-la graças a místicos cristãos da Idade Média, Renascença e os próprios judeus (muitos que sofreram pesados boicotes e ataques de rabinos que não concordaram com sua divulgação). Então ele diz que os estudantes nunca se atreveram a escrever sobre isso por receio da vulgarização de tal conhecimento. Essa é uma das bases da cabala: ela é essencialmente conhecimento oral transmitido de boca a ouvido. Só se escreveu sobre isso recentemente, mas, muito da cabala nunca foi escrito e os iniciados apenas guardam para si mesmos e praticam em segredo. Os métodos de codificação são "chaves" só tem acesso quem conhece a "chave" certa, muitos desses métodos já foram explicados por aqui. Por fim ele fala sobre o "oculto" real, sendo "ocultismo" o conhecimento "velado" e não conhecimento "diabólico" como muitos podem imaginar. 
   Concluindo, longe de pensar na cabala como produto de invenção de rabinos, saiba o leitor que a cabala está muito bem fundamentada, suas chaves tem sido preservadas e é ela o conhecimento base do oculto tão valorizada dentro de vários grupos esotéricos.      

sexta-feira, 19 de abril de 2019

BAAL  SHEM  TOV  E  O  MOVIMENTO  CHASSIDISTA

   Olá a todos! Nessa postagem vou falar resumidamente sobre o cabalista Baal Shem Tov e o movimento chassidista.
   O nome verdadeiro dele era Israel Ben Eliezer chamado depois de Baal Shem Tov, nasceu em 1698 em uma pequena aldeia onde atualmente seria próximo a a tríplice fronteira Polônia-Bielorrússia-Ucrânia, faleceu em 1760. Ele nasceu de pais bem idosos que faleceram quando era criança, por isso foi adotado pela comunidade. Desde criança era muito espiritualizado e gostava de se retirar para a floresta para meditar. Depois de concluir seus estudos passou a trabalhar como assistente de professor das crianças da comunidade judaica, ele se recordava com ternura daquela época pois sentia grande prazer em guiar as crianças no caminho do estudo da Torá. Quando se mudou para a cidade de Okop na Polônia, Israel teve contato com o rabino Efraim de Brody que reconheceu a grandeza espiritual dele e firmou um compromisso de casar sua filha Hanna com ele. Após sua morte, Israel foi até o filho de Efraim chamado Gershon de Kitov que havia se tornado um líder rabínico para pedir a mão de sua irmã como prometido por seu pai. Gershon achou que aquele jovem era alguém ignorante e indigno de se casar com sua irmã, mas teve que aceitar pois Israel mostrou á ele o compromisso assinado pelo pai dela. Israel foi despachado com um cavalo e uma carroça contendo seus presentes de casamento e se estabeleceu em uma cidade montanhosa na região dos Cárpatos. Lá ele passou sete anos isolado em meditação e estudos (assim como vários outros grandes cabalistas do passado) voltando para casa apenas no shabat. Nessa época havia uma sociedade secreta de místicos judaica chamada "Nistarim" (significa "escondidos") que havia sido fundada em meados de 1621 pelo rabino Eliyáhu de Chelm (1537-1653). Os membros desse grupo eram chamados de "baal shem" que significa "mestre do nome" devido ao domínio que tinham das técnicas relacionadas aos "nomes de Deus". Esse grupo se manteve realmente oculto como o próprio nome diz e tiveram o cuidado para que não fossem descobertos ou associados aos seguidores de Shabetai Tsvi (1626-1676) que se autodeclarou como o tão esperado Messias. Israel passou a integrar os Nistarim e em pouco tempo tornou-se o líder desse grupo embora as pessoas o vissem apenas como um "shamash" vigia de sinagoga. Sua primeira esposa faleceu e ele se casou com outra. Nessa época sua renda vinha basicamente da escavação e venda de argila e lime. A sociedade Nistarim decidiu que já era o momento de deixarem de ser ocultos para se tornarem conhecidos publicamente, assim começou o movimento místico/religioso judeu chamado "chassidismo" (da mesma raiz da séfira "chessed" que significa "misericórdia" ou "piedade"). Os conceitos básicos do movimento chassidista era que todos deveriam se esforçar para alcançar uma união com o divino, por isso era apropriado até mesmo ensinar aos não judeus princípios da cabala, assim mais pessoas alcançariam essa união para acelerar a "redenção final" quando o Messias viria para reger um mundo mais justo e harmonioso, uma era de paz. As histórias relacionadas ao Baal Shem Tov dizem que ele realizou curas milagrosas em suas viagens e expulsou demônios. Também se relata que ele dominou as técnicas de ascensão espiritual (merkabah). Em uma carta enviada a seu cunhado ele dizia que ascendeu ao mundo espiritual e viu as almas de muitas pessoas lá tanto de pessoas que já morreram quanto de outros vivos que também faziam a ascensão como ele. Ele disse que se encontrou com o Messias e perguntou á ele quando ele viria para a terra. Ele respondeu que quando os ensinamentos dele se tornarem difundidos no mundo todo, todas as pessoas pudessem fazer a ascensão espiritual e todas as "qliphas" (representação das entidades negativas de acordo com a cabala) fossem destruídas. Baal Shem ficou triste pois sabia que isso era quase impossível de acontecer ou levaria muito tempo. Baal Shem afirmava que atingiu o estado de "devekut" um estado em que sua alma alcançou uma união com o divino e ele tinha autorização para intervir em assuntos humanos e divinos. O movimento chassidista alcançou enorme popularidade especialmente na Europa Oriental, tanto que boa parcela dos judeus atuais tem ligações com algum segmento do chassidismo (pois existem vários segmentos). Um dos trajes tradicionais dos judeus chassidistas especialmente da Europa Oriental é um tipo de "roupão" de cor escura e um chapéu de pele, veja:

sábado, 23 de março de 2019

ABRAHAM  ABULÁFIA  E  A  CABALA  PROFÉTICA (OU "ESTÁTICA")

   Olá pessoal! Nesse post vou falar de modo resumido sobre um dos grandes cabalistas do passado o rabino Abraham Abuláfia.
   Abuláfia nasceu em 1240 na Espanha e faleceu em 1291. A princípio esses números podem parecer desprovidos de significado, porém, o ano de 1240 do nosso calendário cristão equivale ao ano 5000 do calendário hebraico. Abuláfia estava ciente disso e afirmava que havia nascido com uma missão especial: a de disponibilizar ao grande público as técnicas meditativas dos antigos profetas. Em 1258 o pai de Abuláfia que o havia instruído nas interpretações da Torá e do Talmud faleceu. Dois anos depois Abuláfia começou uma vida errante viajando para vários lugares. Ele pretendia ir para Israel, mas, chegou apenas até a cidade de Aco pois havia em Israel muito conflito entre os cristãos e muçulmanos. Ao retornar á Espanha passando pela Grécia resolveu se casar. Em alguns de seus escritos Abuláfia fala sobre o esforço que teve que fazer durante quinze anos para conseguir abandonar o hábito de se masturbar. Vale mencionar que muitos mestres espirituais já tiveram problemas desse tipo. Quando passou pela Itália se dedicou a estudar o livro "Guia dos Perplexos" de Maimônides um livro em que o autor busca conciliar a filosofia de Aristóteles com a teologia judaica. Abuláfia foi apresentado a esse livro pelo rabino Hilel de Verona. Quando retornou á Espanha passou a receber visões. Foi iniciado no livro "Sêfer Yetsirá" pelo rabino Baruch Torgami. Ele disse que a iniciação no Sêfer Yetsirá foi uma das mais marcantes de sua vida. Diferente de outras autoridades judaicas que desprezavam completamente os cristão (chamados desdenhosamente de "gentios") Abuláfia teve discussões enriquecedoras com eles a respeito de religião e inclusive elogiou a perspicácia de muitos deles, mas, sentiu total aversão a ideia de "Trindade" que ele considerou pagã. Em sua passagem por Castela teve por discípulo Josef Gikatalia (1248-1323) autor de "Shaarê Orá" ("portões de luz" em hebraico) uma das mais importantes obras escritas sobre cabala. Com relação a seu sistema de cabala, Abuláfia teve contato com o sistema que faz uso das séfiras, mas, não gostou muito pois achava que conduzia a uma quase idolatria onde se considera as séfiras quase como entidades. Ao invés disso, ele dava preferência a um sistema que faz uso das 22 letras do alfabeto hebraico muito influenciado pelo Sêfer Yetsirá. Ele dizia que eram dois sistemas diferentes: um das dez séfiras e outro das 22 letras. Seu sistema levava a induzir a um elevado estado mental, começando por permutar as letras de uma palavra o máximo possível de forma escrita. Incluía a pronúncia das permutações das letras com "nomes divinos" e movimentos específicos com a cabeça de acordo com a posição dos pontos vocálicos que definem as vogais das letras hebraicas além do controle da respiração. Através desse método o praticante experienciava uma marcante experiencia mística (que pode ser bem assustadora para os não preparados) na qual ele sentia como se seu corpo fosse inundado de luz e um espírito se projetasse na sua frente na forma de um homem e lhe revelava mistérios divinos. Ele chamava seu método de "cabala dos nomes" em referência aos "nomes divinos" típicos da cabala, porém, acabou ficando conhecido como "cabala profética" ou "cabala estática". Ele dizia que tais técnicas meditativas eram as mesmas usadas pelos profetas da antiguidade. Em 1280 Abuláfia se sentiu impulsionado a ir a Roma para converter o papa que era Nicolás III ao judaísmo. Ao saber da intenção de Abuláfia o papa mandou preparar sua execução pública como herege, mas, ele morreu de um ataque de epilepsia uma noite antes de Abuláfia chegar. Abuláfia permaneceu preso por pouco tempo, depois se dirigiu á Sicília. Lá, se apresentava como um tipo de profeta ou messias o que atraiu a hostilidade dos rabinos locais. Esses rabinos começaram uma campanha com pesados ataques contra ele chamando-o de idiota e louco e depreciando seus ensinamentos. Esses ataques se deviam não por Abuláfia estar ensinando práticas contrárias a religião judaica, mas, por causa da grande reserva que esses rabinos tinham em relação ao conhecimento cabalístico até então nunca disponível para para o público em geral. Em 1288 foi forçado a sair para a pequena ilha de Comino perto de Malta onde passou seus últimos dias. 
   Abuláfia escreveu prolificamente, mesmo durante momentos difíceis nunca deixou de escrever sobre seus métodos e ensinamentos e assim deixou uma grande quantidade de manuscritos. Vários desses manuscritos ou cópias deles foram parar em museus de vários lugares. Alguns se conservam em coleções e bibliotecas particulares de cabalistas judeus que se recusam a dar publicidade a isso. Abuláfia falou sobre métodos meditativos muito avançados, muitos já eram conhecidos antes dele mas apenas ele teve coragem de divulgar. A autenticidade de seus métodos pode ser comprovada pelo fato de muitos eminentes cabalistas que vieram depois aprovarem e até fazerem uso desses métodos. Imagem de seu livro Hayyei ha-Olam também chamado "Chaiê Olam Habá" (significa "vida no mundo futuro"):
   

sábado, 23 de fevereiro de 2019

O  GRANDE  CABALISTA  ISAAC  LURIA

   Olá a todos! Nesse post vou fazer um resumo sobre a vida do cabalista judeu Isaac Luria (1534-1572).
   Isaac Luria nasceu em Israel de família askenazi. Devido a sua grande sabedoria, desenvolvimento espiritual e conhecimento de cabala ganhou a alcunha de ARI (iniciais de Elohi Rabênu Yits'chac "divino mestre Isaac" em hebraico) como ARI também significa "leão" em hebraico, ás vezes ele costuma ser chamado de "leão de Safed" por ele ter atuado em seus últimos anos na cidade de Safed.
   Existe uma história que diz que antes do ARI nascer seu pai Shlomo teve uma visão do profeta Elias que disse a ele que o menino que iria nascer deveria receber o nome de Isaac e que ele revelaria segredos da Torá para o mundo desde que ele cumprisse a condição de não circuncidar a criança até ele ver Elias entre os convidados. No oitavo dia de vida durante a cerimônia Shlomo permaneceu em oração aguardando e não permitiu a circuncisão  até ver Elias dizendo aos outros que esperava um convidado atrasado. Muitos foram embora devido a demora e Shlomo chorou pensando que Elias não viria por algum pecado que ele cometeu, mas, finalmente Elias surgiu e Shlomo ordenou que fosse feita a circuncisão. Elias lhe explicou que se atrasou como um teste para saber se ele realmente acreditava nele. Quando o ARI ainda era muito jovem seu pai faleceu, por isso sua mãe se mudou para a casa de seu tio Mordechai Francis no Egito. Aos quinze anos o Ari se casou com a filha de Mordechai sua prima. Estudou técnicas meditativas com o rabino Betsalel Askenazi. Mesmo depois de casado, o ARI não se ocupava de assuntos mundanos, o seu próprio tio/sogro que era muito rico se encarregava de fornecer o sustento dele e de sua filha para poder deixar o ARI livre para se dedicar ao misticismo e mistérios divinos. O ARI passou a viver em uma cabana isolada próximo ao Nilo acompanhado apenas de certos livros de conteúdo esotérico e em total silencio e meditação profunda, ele apenas voltava para sua família no sábado e mesmo em casa se limitava a falar o mínimo necessário. Nessas circunstâncias ele atingiu um elevado nível espiritual e sabedoria e teve uma visão do profeta Elias dizendo que ele deveria ir para Safed em Israel para revelar seu conhecimento ao mundo. A cidade de Safed tinha se convertido em um importante centro de estudos cabalísticos devido a vários fatores e o mais eminente mestre naquele momento era o rabino Moisés Cordovero conhecido como RAMAC (1522-1570). Apesar de sua sabedoria e também os grandes poderes que ele desenvolveu, o ARI chegou discretamente em Safed e tornou-se aluno do RAMAC pelo pouco tempo que eles conviveram. Antes de morrer, o RAMAC disse a seus discípulos que o próximo grande mestre após ele seria a pessoa capaz de enxergar o pilar de luz acima de seu corpo. Depois que ele faleceu, seus amigos quiseram enterrá-lo na área mais nobre do cemitério judeu, mas o ARI interveio e disse que o corpo deveria ser enterrado em outro local onde estava o pilar de luz, assim, as pessoas perceberam que o ARI seria o próximo grande mestre. 
   O rabino Chaim Vital (1542-1620) também estudou com o RAMAC. Depois da morte do RAMAC ele passou a ouvir várias histórias acerca do ARI e quis ir até Safed para verificar por si mesmo se o ARI era realmente tudo isso. Ao chegar lá encontrou o ARI em sua loja comercial cuidando de seus negócios e ficou decepcionado. Antes de ir embora, o ARI o abordou e os dois iniciaram uma conversa em particular na qual o ARI falou grandes segredos e Chaim Vital se deu conta de que aquele era realmente um grande mestre e tornou-se seu principal discípulo. O ARI revelou a Vital que ele tinha vindo ao mundo especialmente para ensinar cabala a Vital pois ele seria responsável por divulgar esse conhecimento ao mundo. 
   Eu mencionei os "poderes" que o ARI desenvolveu, pois veja um relato escrito pelo próprio Chaim Vital seu discípulo:

   "Ele conhecia a linguagem das árvores, das aves e a fala dos anjos. Podia discernir tudo que uma pessoa tivesse feito e ver o que faria no futuro. Podia ler o pensamento das pessoas. Sabia de tudo que estava acontecendo aqui na terra e o que era decretado no céu. Ele conhecia os mistérios da reencarnação, quem tinha nascido previamente e quem aqui estava pela primeira vez. Tudo isso vimos com nossos próprios olhos, essas não são coisas que ouvimos de outros. Nada disso era conseguido por meio da magia, Deus não permita! Pois há uma forte proibição contra essas artes. Tudo vinha automaticamente, como resultado de sua santidade e ascetismo, após muitos anos de estudos dos textos cabalísticos."

   As habilidades especiais do ARI eram fruto de sua santidade e esforço pessoal na busca pelo conhecimento oculto. Ele adquiriu a habilidade de ler a mente das pessoas. Quanto aos decretos do céu, trata-se da técnica conhecida como "merkaba" na qual o adepto ascende aos planos espirituais superiores e pode ouvir as conversas dos anjos. É a mais secreta e mais perigosa técnica cabalística, entretanto, o ARI não apenas dominou essa técnica como ascendia aos planos espirituais de modo espontâneo quando dormia. Em relação a reencarnação, há evidências que apontam que Jesus havia confirmado isso, mas, tal ensinamento teria sido suprimido pela igreja católica. O ARI não apenas falava de reencarnação, como também falava que certas pessoas encarnadas possuíam "fragmentos" de almas de personagens do passado. 
   Dentre as técnicas de cabala prática do ARI estavam meditações especiais, os chamados "ychudim" que são meditações que usam "nomes divinos" específicos. Ele também dizia a seus dicípulos que era muito benéfico meditar sobre o túmulo de um justo do passado e até lhes passava técnicas específicas para poder realizar um tipo de união com as almas desses justos e obter respostas para questões de misticismo. 
   As concepções cabalísticas do ARI estão entre as mais influentes entre os cabalistas judeus da atualidade. Seu túmulo na cidade de Safed é muito visitado, embora haja certa dúvida de que seu corpo realmente foi colocado ali ou foi ocultado em outro lugar por seus discípulos. Fotos da sinagoga asquenazi onde o Ari rezava por fora e por dentro:




   

segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

OS  DIFERENTES  NÍVEIS  DE  ALMA  DE  ACORDO  COM  A  CABALA

   Olá a todos! Nesse post vou falar um pouco sobre o conceito cabalístico de "níveis de alma" e consequentemente de diferentes "universos de manifestação".
   Para os que estão começando a adentrar nos assuntos cabalísticos entender essa terminologia e significado desses conceitos pode ser complicado, não é o tipo de coisa que se encontra facilmente outros objetos para fazer analogia que serve de exemplo facilmente compreendido, não há muitos conceitos equivalentes com os quais a maioria está acostumado, são descrições típicas da cabala. Mas uma boa introdução que eu recomendo pode ser encontrada no meu livro "O Conhecimento da Cabala" link á direita do blog.
   De acordo com a cabala, o universo não é composto apenas desse plano tridimensional/material em que vivemos, na verdade esse é o plano mais grosseiro, limitado e o último a ser criado. Outros planos são mais amplos, mas, Deus (no sentido mais abrangente, não apenas no sentido antropomorfo de velhinho barbudo ditador cósmico que povoa o imaginário popular) é capaz de se manifestar em todos esses universos, o ser humano em seu estado comum é que não é capaz de ter esse contato direto com a manifestação divina, por isso, em suas manifestações em nosso mundo físico ele costuma se apresentar através de "véus", que são filtros. Devido a esses "filtros" nossa visão dele é deturpada, vemos apenas uma fração distorcida do todo. Um exemplo disso é a manifestação da "sarça ardente" para Moisés sobre o qual falei no post anterior intitulado "MOISÉS, O  GRANDE  INICIADO". Em um sentido mais profundo, essa imagem é apenas uma metáfora, um objeto anormal usado para mostrar o quanto Deus se diferencia de nossos conceitos mundanos e limitados. Os universos de manifestação de acordo com a cabala são quatro: assiah (a séfira malkut pertence a esse plano) yetsirá (as séfiras gevurá, chessed, tiferet, hod, yessod e netsach pertencem a esse plano) briá (a séfira biná pertence a esse plano) e atzilut (as séfiras keter e chocmá pertencem a esse plano). Assim como as séfiras da árvore da vida pertencem a diferentes planos de manifestação, também as almas das pessoas atingem diferentes níveis de evolução. Uma ilustração mostrando a que universo de manifestação pertence cada séfira na árvore da vida:


   Veja essa explicação dada em forma de nota do editor no livro "Meditação e Cabalá":

   "(...) alguns cabalistas ensinam que a alma não é despertada de forma uniforme ou completa no corpo físico; quando a criança nasce, juntamente com o primeiro sopro desperta-se a Néfesh, a parte mais primitiva da alma, que permite ao indivíduo a força de Guf (corpo físico); com aproximadamente 13 anos manifesta-se a Rúach, a parte da alma responsável pelo intelecto e pela capacidade de argumentação; entre os 28 e 36 anos, o ser acorda a Neshamá, a compreensão interna do lado espiritual, que permite o alcance de níveis mais altos de conexão com o Divino. As duas mais altas partes da alma, Chaiá e Iechidá, são concedidas aqueles que já estão em um nível espiritual muito alto ou próximos da morte. Mas, nem sempre é assim. Alguns indivíduos despertam as três primeiras camadas da alma logo na infância; outros, passam a vida toda só com as duas primeiras -são os intelectuais ateus, que não conseguem crer em Deus simplesmente porque não conseguem alcançar a compreensão de nada além da matéria. E, ainda que isto represente algo não natural, existem poucos privilegiados, com missão bem definida, o que faz com que recebam o despertar das cinco partes da alma logo na passagem da adolescência para a fase adulta. Entre esses, posso indicar Isaac Luria, Moshe Luzatto, Arieh Kaplan e outros, que vão 'embora' cedo pois completaram suas tarefas em tempo recorde!"

   Resumidamente, a "alma primordial" chama-se "néfesh", é a alma em seu estado mais simples ligada a impulsos instintivos, a essa categoria pertencem as almas dos animais, dos bebês humanos, das entidades forma-pensamento e dos golems criados pelos grandes adeptos. "rúach" é o próximo nível quando a alma desenvolve a capacidade de compreender de modo lógico vários assuntos. O próximo nível é "neshamá" quando a alma desperta a capacidade de sondar os assuntos espirituais de modo maduro, esse nível é alcançado geralmente na idade adulta. "Chaiá" é um nível acima alcançada por volta dos 40 anos. O nível mais elevado alcançado pela alma é chamado "iechidá" quando a alma já tem capacidade de penetrar os grandes mistérios divinos e do universo, nesse nível ela já está apta a ter um contato direto com o divino, sem filtros. Esse nível geralmente só se alcança na velhice. O editor citou nomes de grandes santos que faleceram jovens por já terem cumprido suas missões e alcançado os níveis elevados de alma rapidamente. O nível mais elevado é o que foi alcançado pelos grandes iluminados do passado como o patriarca Enoch, o profeta Elias e El Khidr patrono da ordem muçulmana sufi, todos esses citados transcenderam o nível mundano da existência através da ascensão espiritual e tornaram-se imortais ainda hoje lembrados ( e mantendo contato) pelos adeptos de alto nível de todas as ordens iniciáticas e tradições esotéricas.  

sábado, 1 de dezembro de 2018

MOISÉS, O  GRANDE  INICIADO

   Olá pessoal! Nesse post vou falar de forma compactada sobre a vida de um dos personagens que mais marcaram a história da humanidade e que é considerado o grande legislador (e profeta) dos judeus, além de ser considerados pelos adeptos como um eminente cabalista: Moisés.
   O primeiro desafio a ser encarado pelos que tentam rastrear a história de Moisés é tentar estabelecer em que época ele teria vivido. Segundo alguns pesquisadores, o faraó que reinava no Egito quando Moisés guiou o povo hebreu para a "terra prometida" Canaã seria Ramsés II que nasceu em 1303 a.C. e reinou de 1279 a. C. a 1213 a. C. Então o faraó responsável pela política de perseguição aos hebreus mandando matar os filhos deles recém nascidos e deixando os filhos do sexo feminino vivos teria sido Seti I. As melhores fontes para tentar rastrear as origens de Moisés são a Bíblia e o Alcorão, e, tentarei deixar registrado aqui para os leitores os capítulos e versículos desses livros de onde tiro as citações.
   Segundo a Bíblia, Moisés era oriundo da família de Levi (que veio a se tornar a casta sacerdotal judaica) e quando a perseguição aos meninos hebreus foi promulgada ele mandou colocar seu filho em um cesto de junco e jogá-lo no rio (o Nilo, embora seu nome não seja citado na Bíblia), então a filha do faraó viu o cesto com o menino quando se banhava no rio e tomou-o para si adotando-o, a irmã de Moisés Mirian que acompanhou a trajetória do cesto recomendou a filha do faraó que contratasse uma mulher dos hebreus para amamentá-lo, e assim a própria mãe de Moisés se tornou sua ama-de-leite. O nome "Moisés" significa "tirado das águas". Essa narrativa se encontra no livro de Êxodo cap. 2. Já o Alcorão diz que a mulher que adotou moisés era esposa do faraó, mas, era costume tanto da Pérsia quanto do antigo Egito que os irmãos filho e filha dos reis se casassem, portanto é possível que a esposa do faraó fosse sua própria irmã. Tanto narrativas relacionadas a Abraão quanto a Moisés aparecem em muitas partes do Alcorão, mas, as mais diretas sobre Moisés estão no cap. ("sura" em árabe) 28 intitulada "As Narrativas" e o cap. 20 intitulado "Taha". O Alcorão diz que Moisés foi criado no palácio egípcio, portanto, conheceu bem a língua, costumes, e até os segredos ocultos do antigo Egito. Então, certo dia ele resolveu sair do palácio se aproveitando de uma distração dos tutores que o vigiavam para ver como era a vida lá fora na cidade, assim, ele viu um egípcio maltratando um hebreu e tomou partido desse matando o egípcio. No dia seguinte, o mesmo homem que ele ajudou estava em uma disputa e Moisés quis ajudá-lo, mas, o adversário desse lembrou-lhe do homem que ele havia matado no dia anterior, por isso Moisés temeu pelo julgamento e fugiu para Madiã (ou Median) que fica a oeste do monte Sinai. Essa região era habitada por uma tribo semelhante a árabes nômades e Moisés se refugiou junto a um poço. Segundo a Bíblia, as sete filhas do sacerdote de Madiã, Jetro, foram até o poço para pegar água para das de beber aos seus rebanhos mas foram expulsas por outros pastores, e, Moisés vendo essa injustiça pegou água do poço e deu de beber aos rebanhos delas, segundo o Alcorão, eram apenas duas filhas de Xuaib, o mensageiro de Deus enviado ao povo de Madian, um povo de árabes nômades que era famoso por fraudar as balanças durante o comércio que praticavam com estrangeiros. No dia seguinte, as filhas de Jetro/Xuaib convidaram Moisés a tenda de seu pai, e esse foi bem recebido e contou a história de sua fuga do Egito a Jetro/Xuaib que ofereceu-lhe um contrato de trabalho no qual teria direito a se casar com uma das filhas dele ao trabalhar pastoreando seu rebanho, Moisés aceitou e se casou com Tzefora (chamada de "Séfora" na Bíblia). Certa vez, Moisés já maduro e pai de família viu uma luz enquanto pastoreava o rebanho e foi até onde essa luz estava, (segundo o Alcorão, esse lugar era o "vale de Tawa" ou "vale de Tôua"). A Bíblia diz que ele viu Deus se manifestando em uma chama em um arbusto que ardia mas não se consumia. Na verdade, os cabalistas dizem que isso não passa de uma analogia simbólica, pois, Deus não pode se manifestar diretamente a homem algum que não esteja espiritualmente preparado, por isso ele se apresenta através de "filtros" como nesse caso. Deus se manifestou a Moisés e mandou ele jogar seu cajado no chão que se transformou em serpente, depois mandou ele colocar a mão dentro da túnica que saiu branca de lepra e depois voltou ao normal, esses são sinais que ele devia mostrar ao faraó como prova de que ele era um representante do Deus único e para lhe pedir para deixar os hebreus saírem do Egito. No Alcorão cap. 20 versículos 17 a 21, veja:

   "'Que seguras na mão direita, ó Moisés?'                                            Respondeu: "É meu cajado, no qual me apoio. Com ele, quebro folhagem para meus carneiros. E serve-me para outros usos."               Ordenou Deus: "Joga-o no chão, ó Moisés."                                   
   E Moisés lançou-o ao chão, e eis que o cajado virou uma serpente em movimento.                                                                           
   Deus ordenou: "Agarra-a, e nada temas, voltaremos-a a seu estado original."
                                                                                                   
   Muitas lendas foram criadas em torno desse cajado de Moisés através do qual ele realizou grandes milagres e que também era símbolo de sua autoridade, tornou-se objeto de mitos e especulações. Moisés argumentou que não tinha um linguajar eloquente e pediu para deixar seu irmão Aarão lhe ajudar nessa missão. Ao apresentar seus milagres diante do faraó, esse se recusou a conceder a saída dos hebreus, pediu opinião a seus conselheiros que recomendaram chamar outros "mágicos" para mostrar uma magia maior e ainda pediu a Haman para mandar coser tijolos e construir uma torre semelhante a torre de Babel em afronta ao deus de Moisés (Haman é citado apenas no Alcorão e provavelmente era um conselheiro ou general do faraó que incentivava a política de opressão aos povos estrangeiros que habitavam o Egito). De acordo com o livro pseudo-epigrafado "Testamento de Salomão" escrito nos primeiros séculos d.C. a arrogância do faraó foi instigada pelo demônio Azethibod que tinha a aparência de uma criatura com uma asa apenas e que ficou "lacrado" no Mar Vermelho após a travessia dos hebreus (para mais detalhes sobre isso recomendo outro livro meu onde falo sobre os mistérios relacionados a Salomão que pretendo publicar futuramente). Moisés atravessou o Mar Vermelho que se abriu junto com o povo hebreu e os soldados do faraó se afogaram quando tentaram perseguir os hebreus. Depois disso o que se segue é a orientação de Moisés aos hebreus sobre o que é permitido ou proibido, a orientação para a criação de certos artefatos como a Arca da Aliança e quarenta anos de peregrinação errante no deserto antes da entrada na "terra prometida" de Canaã (os cabalistas bem sabem que esse número "quarenta" é puramente simbólico). Em certo momento, Moisés se retirou para o monte para consultar Deus e receber revelações (muitas especulações existem sobre esse monte, uns dizem que seria o "Monte Horeb" outros dizem que seria o "Monte Sinai" mas qual seria exatamente essa montanha permanece um mistério). Enquanto Moisés estava nesse monte e recebeu as "tábuas" contendo os dez mandamentos, o povo hebreu se perverteu e criou um bezerro de ouro fundindo suas joias de ouro e adorando-o como seu deus. Segundo a Bíblia no cap. 32 de Êxodo, enquanto Moisés etava fora no monte o povo hebreu pediu a Aarão permissão para fazer a imagem do bezerro de ouro e Aarão até orientou seu feitio. Mas o Alcorão diz que quem orientou os hebreus a fabricar esse bezerro foi um estrangeiro que estava entre o povo hebreu, um homem samaritano. Quando Moisés voltou e viu a idolatria do povo hebreu recriminou duramente seu irmão Aarão e esse disse que foi culpa do samaritano. Veja o trecho do Alcorão cap. 20 versículos 95 a 97:

   "Moisés disse: 'E tu, que tens a dizer, ó samaritano?'                         Respondeu: 'Vi o que os outros não viram. Tive então o impulso de apanhar um punhado de terra das pegadas do Mensageiro (Moisés) e jogá-lo contra o bezerro.'                                                  
   Disse Moisés: 'Afasta-te daqui. Teu quinhão da vida será repetir: 'Não me toques'. (significa que ele foi amaldiçoado com a lepra). E terás um encontro marcado que não falhará. Contempla teu deus a quem te dedicavas. Queimaremos-o e jogaremos suas cinzas no mar."

   A ideia de criar a imagem de um bezerro para adorar como deus pode ter vindo da Índia. O antigo Egito era uma nação multicultural e recebia estrangeiros de partes tão distantes do mundo como Grécia, regiões da África, Pérsia e a Índia. O culto ao deus/boi Ápis popular no Egito ainda na época do imperador romano Augusto deve ter evoluído a partir da superstição dos indianos do Egito e é possível que esse samaritano tenha se baseado nisso para orientar os hebreus a criar a imagem de um bezerro. Quanto a ideia de pegar um punhado de terra das pegadas de Moisés, isso de chama "energia vibracional". Cada indivíduo possui uma energia vibracional própria exalando de seu corpo, por isso objetos pertencentes as pessoas ou mesmo peças de roupas costumam serem usadas nas "magias simpáticas" para afetar o indivíduo a distância, é um conhecimento praticamente institivo e a razão de alguns indivíduos nos tempos de Jesus quererem tocar em suas vestes para serem curados de suas moléstias, pois sabiam que a "energia vibracional" dele era capaz disso. O Alcorão ainda diz que esse bezerro de ouro emitia mugidos, isso por que quando Moisés saiu para o monte o samaritano tendo visto pessoalmente os feitos extraordinários realizados por Moisés sabia institivamente que a energia dele era capaz de feitos extraordinários, por isso pegou um punhado de terra de onde ele tinha pisado e quando o bezerro ficou pronto jogou sobre essa estátua que passou a emitir mugidos (esse detalhe dos mugidos só aparece no Alcorão, não na Bíblia). Ilustração representando Moisés:
   A igreja dos Mórmons também chamada de "Igreja dos Santos dos últimos Dias" possui entre seus livros sagrados um chamado "Testamento de Moisés" no qual é narrado que Moisés certa vez foi chamado ao monte e Deus revelou-lhe mentalmente muitos dos planetas onde haviam civilizações que ele governava, Moisés ficou aturdido com essa visão e desmaiou. Ao despertar, Moisés reconheceu que Deus era o senhor de "muitos mundos" (civilizações extraterrestres) e o Diabo se apresentou a ele exigindo ser adorado. Moisés se recusou a adorá-lo e esse ficou furioso, por fim ele saiu de cena e Deus retornou dizendo que aquele havia sido um teste no qual ele passou. A morte de Moisés se encontra narrado no cap. 34 de Êxodo veja:

   "Subiu Moisés das planícies de Moab ao monte Nebo, ao cimo de Fasga, defronte Jericó. O Senhor mostrou-lhe toda a terra, desde Galaad até Dã, todo Neftali, a terra de Efraim e de Manassés, todo território de Judá até o mar ocidental, o Negeb, a planície do Jordão, o vale de Jericó, a cidade das palmeiras até Segor. O Senhor disse-lhe: 'Eis a terra que jurei a Abraão, a Isaac e a Jacó dar a sua posteridade. Viste-a com os teus olhos, mas não entrarás nela.'             E Moisés, o servo do Senhor, morreu ali na terra de Moab, defronte Bet-Fegor, e ninguém jamais soube o lugar do seu sepulcro. Moisés tinha cento e vinte anos no momento de sua morte; sua vista não se tinha enfraquecido, e o seu vigor não se tinha abalado."

   Por esse trecho entendemos que após sua jornada, Deus pediu a Moisés para subir ao monte, e, como último teste disse a ele para se suicidar se jogando do alto, antes disso Moisés já tinha passado sua autoridade a Josué que passou a liderar os hebreus. Esse trecho também diz que embora Moisés tivesse 120 anos, ainda estava vigoroso e não um velhinho acabado. Quanto ao destino de seu corpo, a carta de São Judas diz no versículo 9:

   "Ora, quando o arcanjo Miguel discutia com o demônio e lhe disputava o corpo de Moisés, não ousou fulminar contra ele uma sentença de execração, mas disse somente: 'Que o próprio Senhor te repreenda'."

   Certamente o diabo tinha motivos para querer o corpo de Moisés, seria útil a ele para muitas coisas obscuras além dele se vingar dele por não tê-lo adorado. Resta somente a respeito de Moisés citar duas coisas: um livro conhecido da tradição cabalística chamado "A Espada de Moisés" que se trata de uma série de fórmulas baseadas em "nomes de Deus, um típico grimório possivelmente escrito por um rabino na Idade Média. E também o que Blavatsky tem a dizer a respeito de Moisés, está na excelente biografia dela "Madame Blavatsky, A Mãe da Espiritualidade Moderna" cap. 5 pag. 115:

   "Essa Cabala, a primeira e a original, foi alterada depois por Moisés, um 'ambicioso profeta e médium' que trocou seu espírito familiar, o vingativo Jehovah, pelo espírito de Deus."

   Essa declaração de Blavatsky sugere que a princípio Moisés (que seria um tipo de médium) servia-se dos favores do "espírito familiar" Jehovah (o mesmo de "Iawel" entidade adorada em Canaã) depois passou a servir ao Deus único. Quanto a tradição presente na arte da Idade Média e Renascença da Europa de representar Moisés com chifres recomendo darem uma olhada no meu outro blog: ricardodias7.blogspot.com.br post de título "OS CHIFRES DE MOISÉS" onde explico a razão disso. No mais, a tradição da cabala considera Moisés um grade adepto que conheceu a fundo os mistérios e tradições mágicas do antigo Egito e foi certamente um cabalista que preservou essa tradição e transmitiu-a a outros, parte da qual chegou até os cabalistas dos dias atuais, além de ter deixado para trás certos "artefatos mágicos" hoje perdidos ou ocultados de olhos profanos.