domingo, 28 de outubro de 2018

GERSHOM  SHOLEM  E  SUAS  CONTRIBUIÇÕES  PARA  O  MISTICISMO  JUDAICO

   Olá pessoal! Nesse post vou falar sobre um personagem muito influente tanto no misticismo judaico contemporâneo quanto nos meios intelectuais do judaísmo em geral: Gershom Scholem.
   Na pesquisa que eu fiz para meu livro "O Conhecimento da Cabala" (link para ele á direita desse blog) e na pesquisa que qualquer um fizer relacionado ao misticismo judaico ocasionalmente vai encontrar o nome de Gershom Scholem. Gershom Scholem (cujo nome original é Gehard Scholem) nasceu em 1897 na Alemanha e faleceu em 1982 em Jerusalém, Israel. Já li decrições de Scholem como o "mais importante estudioso acadêmico da cabala no século XX" e também de referências á ele como tendo sido um grande cabalista, essas alegações tem que ser colocadas em "pratos limpos" e é o que vou tentar fazer nesse post.
   A primeira coisa a ser considerada sobre ele é que Scholem não foi um cabalista de verdade, pelo menos não no conceito verdadeiro de "cabalista prático". Ele foi um estudioso, isso é confirmado, e um grande conhecedor de todos os principais textos do judaísmo como a Torá, o Midrash (texto que versa sobre a interpretação esotérica da Torá), o Zohar (texto trazido a publico pelo rabino cabalista espanhol Moshe de Leon 1250-1305. Até hoje é o mais exaltado texto do misticismo judaico embora eu considere isso exagerado) o Talmud e outros. Scholem está muito mais para um intelectual lógico, racionalista e científico que interpretou de modo puramente "racional" a religião judaica e o misticismo judaico do que para um ocultista de verdade, isso certamente todos os ocultistas praticantes reconhecerão. Fotos de Scholem jovem, adulto e idoso, sempre cercado de livros:





   Vou tentar entrecortar narrativas biográficas de Scholem com o desenvolvimento de seu pensamento e os elementos que influenciaram seu pensamento. 
   Scholem nasceu na Alemanha. Seu pai era um impressor e não tinha muito interesse no judaísmo, mas, sua mãe o encorajou a estudar a língua hebraica e o Talmud com um rabino. Em relação a sua vida acadêmica, estudou lógica matemática e línguas semíticas. Casou-se com sua primeira esposa Elsa Buschard que conheceu na Alemanha quando estudava na universidade. Seu texto de doutorado foi baseado no Bahir de Nehunya ben Hakanah um eminente rabino do séc. I um texto de Midrash (considerando "Midrash" como interpretação esotérica da Torá em geral). Desde jovem foi atraído ao estudo do misticismo judaico e interpretou esse misticismo do ponto e vista do movimento chamado "Wissenchaft des Judentums" ("estudos judaicos" ou "estudos do judaísmo") um movimento que entendia o judaísmo e também a mística judaica como um legado da civilização ocidental e interpretava tópicos desse tema de modo puramente científico. Quando jovem se encontrou com um rabino especialista em cabala que se referiu aos muitos livros sobre cabala de sua prateleira como um "lixo" e "perda de tempo". Scholem desde cedo entendeu a cabala não como algo útil e elevado, mas, como um resíduo supersticioso digno apenas de estudo acadêmico (o misticismo desprovido de seu caráter "intuitivo" e "misterioso" é apenas texto e matéria de estudo acadêmico mesmo, apenas aqueles que experimentam os aspectos práticos do esoterismo entendem seu valor). O pensamento de Scholem sobre o judaísmo e mística judaica em geral não era muito diferente do pensamento dos acadêmicos alemães de seu tempo, na verdade suas opiniões sobre esses assuntos eram muito alinhadas com o pensamento dos alemães de nascença que não tinham nenhuma relação com judaísmo e a mística judaica (levando-se em conta que alemães como Cornellius Agrippa, o barão Knorr Von Rosenroth, Johann Reuchlin além do alquimista Paracelso que era suíço mas deu contribuições valiosas a literatura de misticismo em língua alemã todos esses foram influenciados pela cabala e contribuíram para a cabala com textos em língua alemã, nem todo alemão é "puramente científico"). 
   Outros intelectuais judeus com os quais Scholem teve contato e com os quais manteve correspondência postal por longo tempo foram Walter Benjamin 1892-1940 (que se suicidou tomando comprimidos de morfina durante sua tentativa de atravessar a fronteira da Espanha para Portugal e depois emigrar para os EUA durante a perseguição nazista) e Leo Strauss 1899-1973. Curioso é que outro intelectual judeu/húngaro colega de Benjamin chamado Arthur Koestler notável por ter publicado o livro "A Décima Terceira Tribo" conhecido do pessoal das "teorias da conspiração" por falar da "tribo Khazar" também tentou se suicidar da mesma maneira  ao atravessar a fronteira mas sobreviveu.
   Scholem acreditava que o misticismo judeu foi um percussor de um tipo de gnosticismo anterior ao gnosticismo cristão. O irmão de Scholem chamado Werner se tornou adepto do ultra-esquerdismo marxista/comunista e acabou assassinado pelos nazistas (podemos especular sobre uma ligação entre o judaísmo e sua influencia no surgimento do marxismo/comunismo, afinal, Carl Marx era judeu da Prússia e a Rússia berço da Revolução Bolchevique sempre teve relevante colônia judaica). Mas Scholem era radicalmente contra o comunismo/marxismo embora tenha flertado com o sionismo judeu. 
   Em 1923 influenciado pelas ideias do sionismo ele emigrou para a Palestina onde trabalhou como bibliotecário. Em 1936 ele se casou com sua segunda esposa Fania Freud. 
   Dentre os livros de Scholem que podem ser considerados referências eu elegeria "Kabbalah", "A Cabala e Seu Simbolismo", "Origens da Kabbalah", "Zohar-O Livro do Esplendor", "Principais Tendencias do Misticismo Judaico" e "Gnosticismo Judaico, Misticismo Merkabah e Tradição Talmúdica". Ainda hoje Scholem é tido como uma importante fonte de referência em relação a textos judaicos e estudos sobre misticismo judaico, mas, volto a afirmar: Scholem era um estudioso acadêmico e não um cabalista ou ocultista  praticante, portanto, seus livros não devem ser considerados textos "de cabala prática".